Title: | Meninas vítimas de violência sexual e a formação do sentido da experiência escolar |
Author: | Brandalise, Débora Vanusa |
Abstract: |
A pesquisa (auto)biográfica (Abrahão, 2018) e o método biográfico progressivo-regressivo (Sartre, 1905-1980) são mobilizados nesta tese no estudo da produção das desigualdades escolares e da formação do sentido da experiência escolar de meninas adolescentes que passaram por situação de violência sexual. Traz como característica metodológica a perspectiva de diálogo com outras áreas do conhecimento de maneira interdisciplinar, circunscrita na pesquisa (auto)biográfica a partir de Abrahão (2003; 2018), na sociologia da educação com Charlot (2000; 2002; 2013), Saffioti (2007; 2015), Guerra (1993), Minayo (1994; 2001), na Psicologia com Guedes (1995), Maheirie e Pretto (2007) e na antropologia com Segato (2020), apenas citando alguns. Os estudos sobre violências tornaram-se frequentes em diferentes áreas do conhecimento e instituições, demandando maior articulação entre as pesquisas frente a necessidade de ampliar as reflexões deste fenômeno histórico e social. Em seus múltiplos desdobramentos a dinâmica e complexa movimentação da violência nos liames sociais chega e afeta os envolvidos no processo educacional nas suas diferentes modulações, como a violência sexual contra adolescentes que explicita formas impositivas e opressoras contra meninas em sua relação com os aprendizados. Nesse sentido, realizamos uma análise do panorama dos estudos no Brasil e no estado de Santa Catarina, mostrando os dados estatísticos que retratam a dimensão desse fenômeno. Partindo então, da realidade de Florianópolis, nossa coleta de dados deu-se em uma escola pública da rede municipal de ensino, a partir da análise de registros sobre violência sexual nos arquivos da equipe pedagógica e na formação de um grupo de adolescentes composto por 06 meninas com idades entre 13 e 15 anos, estudantes do Fundamental II, que aceitaram voluntariamente participar da pesquisa. Foram realizados encontros semanais, durante um mês, em que foi possível desenvolver elementos teórico-metodológicos das técnicas aplicadas ao grupo focal. Concomitante a isso, foram efetuadas entrevistas semi-estruturadas com quatro profissionais da escola (professoras e equipe diretiva) para ampliar a investigação da temática. De acordo com a metodologia utilizada, elegemos um perfil biográfico para verticalizar a análise compreensiva. A partir do acesso a uma ampla literatura aliada aos elementos narrativos das adolescentes e das profissionais da escola, apreendemos que a violência sexual traz em seu conjunto hediondo, a violação dos direitos humanos, constituida de uma grave violação física, em que o corpo (da menina/mulher) é objetificado. Uma violência que normalmente junta-se a outras intensificando a gravidade do ato; que enovela-se na hierarquia do afeto e da confiança de quem deveria proteger, mas torna-se algoz, trazendo danos para as vítimas. Concluímos assim, que a desigualdade escolar perpassa por aspectos da desigualdade de gênero, isso observado tanto nas falas das profissionais quanto das adolescentes. Nesse sentido, as adolescentes, vítimas de violência sexual, relataram maior sofrimento em relação a socialização no ambiente escolar, com dificuldades para trocas interpessoais baseadas no afeto e na confiança. Entretanto, na questão do rendimento escolar (boletim escolar), não foi possível identificar a relação da violência sofrida com o desempenho obtido. E por fim, confirmando nossa hipótese, de que a violência sexual contra meninas contribui significativamente para a manutenção e assimilação de desigualdades escolares por meio de mecanismos, por vezes, tênues de opressão e subalternidade afetando a vida das mesmas, constatamos que havia/há estudantes vivenciando tais situações, com prejuízo para sua formação escolar e vida de relações. Abstract: (Auto)biographical research (Abrahão, 2018) and the progressive-regressive biographical method (Sartre, 1905-1980) are mobilized in this thesis to study the production of school inequalities and the formation of the meaning of the school experience of adolescent girls who have experienced situations of sexual violence. Its methodological characteristic is the perspective of dialogue with other areas of knowledge in an interdisciplinary manner, limited to (auto)biographical research based on Abrahão (2003; 2018), in the sociology of education with Charlot (2000; 2002; 2013), Saffioti (2007; 2015), Guerra (1993), Minayo (1994; 2001), in Psychology with Guedes (1995), Maheirie and Pretto (2007) and in anthropology with Segato (2020), just to name a few. Studies on violence have become frequent in different areas of knowledge and institutions, demanding greater articulation between research in view of the need to broaden reflections on this historical and social phenomenon. In its multiple developments, the dynamic and complex movement of violence in social networks reaches and affects those involved in the educational process in its different forms, such as sexual violence against adolescents, which explicitly imposes and oppresses girls in their relationship with learning. In this sense, we conducted an analysis of the panorama of studies in Brazil and in the state of Santa Catarina, showing the statistical data that portray the dimension of this phenomenon. Starting from the reality of Florianópolis, our data collection took place in a public school of the municipal education network, based on the analysis of records on sexual violence in the files of the teaching staff and the formation of a group of adolescents composed of 06 girls between the ages of 13 and 15, students of the 2nd cycle of elementary school, who voluntarily agreed to participate in the research. Weekly meetings were held for a month, in which it was possible to develop theoretical and methodological elements of the techniques applied to the focus group. At the same time, semi-structured interviews were conducted with four school professionals (teachers and management team) to broaden the investigation of the topic. According to the methodology used, we chose a biographical profile to verticalize the comprehensive analysis. From access to a wide range of literature combined with the narrative elements of the adolescents and school professionals, we learned that sexual violence entails, in its heinous ensemble, the violation of human rights, consisting of a serious physical violation, in which the body (of the girl/woman) is objectified. This violence is usually combined with other violence, intensifying the gravity of the act; it becomes entangled in the hierarchy of affection and trust of those who should protect, but instead become the executioner, causing harm to the victims. We thus conclude that school inequality permeates aspects of gender inequality, which was observed in the statements of both the professionals and the adolescents. In this sense, adolescents who were victims of sexual violence reported greater suffering in relation to socialization in the school environment, with difficulties in interpersonal exchanges based on affection and trust. However, in terms of academic performance (school report), it was not possible to identify the relationship between the violence suffered and the performance obtained. Finally, confirming our hypothesis that sexual violence against girls contributes significantly to the maintenance and assimilation of school inequalities through sometimes tenuous mechanisms of oppression and subordination affecting their lives, we found that there were/are students experiencing such situations, with harm to their academic education and life of relationships. |
Description: | Tese (doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Florianópolis, 2024. |
URI: | https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/263768 |
Date: | 2024 |
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PEED1783-T.pdf | 4.332Mb |
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