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Abstract:
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Paineiras germinam em meus sonhos e aranhas me ensinam a fazer crochê melhor. Em meio à crise climática e o excepcionalismo antropocêntrico, um estudante de Biologia está tentando sair de sua bolha humana para aprender a viver com seres de outras espécies, em especial àqueles sem nenhum apelo ético aparente aos humanos: feios, asquerosos, aterrorizantes, inúteis. Estes seres têm sido chamados de “não-amados”, e eles estão especialmente em perigo em meio à crise climática, pois a sua perda, na maior parte, não causa impacto emocional ou cultural aos seres humanos. Nesse contexto, os estudos multiespécies surgem como um campo de estudos indisciplinar, que se debruça sobre os entrelaçamentos entre as vidas humanas e “não-humanas”, por meio de uma imersão apaixonada nas diferentes possibilidades de co-existência entre os seres desse planeta. Autores como Thom van Dooren e Vinciane Despret têm explorado novas maneiras de pensar e falar sobre as relações multiespécies em um período marcado por extinções e eventos climáticos extremos. Precisaremos, juntos, inventar novos mundos futuros nos quais habitar. Para isso, aproprio-me das artes da atentividade, termo utilizado por van Dooren, Kirksey e Munster, que, juntamente com a antropóloga Anna Tsing em suas pesquisas com cogumelos, nos orienta a olhar para baixo e reconhecer os modos de vida dos seres que estão ali. Acredito que uma dessas artes é a literatura, e, neste caso, a ficção climática. Mais que um gênero literário, a ficção climática é um conjunto de temas e cenários, que abordam as mudanças climáticas antropogênicas, as suas consequências no planeta Terra e as formas como humanos e outros-que-humanos vivem e sobrevivem em um mundo perturbado. Da fusão dos estudos multiespécies e da ficção climática, apresento uma coleção de textos, fabulações conjuntas entre eu e os seres com os quais esbarrei. Essa pesquisa é o resultado de um esforço ético de prestar atenção aos não-amados, mais-que-humanos, companheiros de mundo, e tentar, por meio da literatura, dizer-com para viver-com eles. |